quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Beirais

      I

De onde essa dor

que não se mostra

recôndita detrás

de invisíveis portas?


De onde esse voo

alçado sobre destroços

a ausência de beirais

ao pássaro acaso importa...

        II
                   
Sob rútilo amanhecer

sobeja vivacidade

e as certezas são vagas

no redil dos incautos.


De onde esse voo

displicente e inefável

que prefere a turbulência

a beiral seguro e calmo?

        III

 relógio dissolve idílios

e com a sutileza dos sábios

                   urde insídias.

Por que a idiossincrasia

de postar-se à frente

                 na batalha

reivindicando medalhas,

                  guarida?


E  no lusco-fusco que se anuncia

sentinela a observar o mar agitado

perscruto: haverá beirais

para um eventual pouso forçado?
De onde a música?

Havia sorriso e luz

nas tardes brancas de outono

em que os meninos soltos

olvidando quaisquer conselhos

burlavam a vigilância das horas.


O mundo não era ainda

esse labirinto de espantos

e acrobatas por instinto

saltávamos o muro do encanto.


Hoje há essa encruzilhada

cravada no peito da noite

de onde virá a música

soando feito pranto?

 Ausência (*)


Abraça-me

como o brilho ao cristal

que guarda dos lábios

                               as marcas

a saliva ainda em ebulição.


Abraça-me

como órfão ao destino

o beco ao fugitivo

que desprovido de perspectivas

                                 admite o precipício.


Compartilharemos

do barco à deriva as velas

qual andejo com o nada

observadores atentos

                              horas e sentinela.


Abraça-me infinda madrugada

como um pai que ao filho espera.


                              * Poema vencedor do Prêmio Ribeirão Preto de Literatura.