quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O preço do poema
 
            
             I
 
 
Quanto vale o poema:
 
- nas frentes de batalha
 
- nas perdas irreparáveis
 
- na solidão que a alma talha?
 
 
Quanto vale o poema:
 
- aos nossos filhos drogados
 
- aos órfãos do destino
 
- aos desenganados?
 
O poema faz seu preço
 
ou o preço do poema
 
pelo tamanho da fome
 
é estipulado?
 
Quanto vale o poema:
 
- nas filas dos hospitais
 
- nas mutilações dos sonhos
 
- nas nossas guerras pessoais?
 
Quanto vale o poema:
 
- aos idosos desrespeitados
 
- às minorias esquecidas
 
- aos amantes desregrados?
 
O poema faz seu preço
 
ou deveras
 
estou enganado?
 
 
             II
 
  
Quanto nos cobra o poema:
 
 - por uma sinfonia de metáforas
 
 - por uma visitação à alma
 
 - por um deslumbre de voos?
 
Ou desapegado da matéria
 
doa-nos, ele, complacente
 
as suas inefáveis asas?
 
 
O preço do poema, senhores,
 
é o poeta quem paga!



Poema classificado: Noite Nacional da Poesia - União Brasileira de Escritores/MS
Metáforas do descaso

        Opressoras palavras

que mal (ditas)

reverberam falácias:

- quanto vale uma corrompida

metáfora?

 
Opressora desigualdade

estampada nas crônicas

dos viadutos

nos cárceres das calçadas:

- quem acalentará os sonhos

ah, inevitável alvorada!
 

Opressora discriminação

pelo silencioso véu legalizada:

- mas, noite e dia não são adornos

de um único céu?

 
“Não sou alegre

nem sou triste...”

 
E no deserto da indiferença

entre opressores e oprimidos

a poesia, simplesmente,

resiste...



Prêmio Literário Ziraldo - Feira do Livro de Ribeirão Preto - SP 
   Momentos
 
      I
 
 
Já tive fogo nas mãos
 
e vaga-lumes na garganta
 
e canções iluminadas
 
vazavam do meu peito
 
em chamas.
 
Foi um tempo de descobertas
 
em que a alma míope
 
não distinguia acertos
 
e dúvidas
 
futuro e instante.
 
E as noites eram
 
visões de luas
 
e a vida
 
um sonho constante.
 
               
      II
 
 
O relógio arrebentou
 
as correntes
 
adormecidas sob a
 
paisagem
 
e foi um fremir de
 
folhas
 
(inundação de salivas ardentes)
 
na libertação das águas
 
represadas.
 
Do passado apenas
 
longínquos eflúvios
 
visita íntima
 
ao êxtase da alma
 
renovada.


Poema selecionado -  Antologia do III Prêmio Literário Canon de Poesia 2010.
Noturna paisagem
 
  
Na ânsia louca de
 
se banhar
 
a lua arrebenta no
 
penhasco
 
e num ponto distante
 
e insondável
 
o suicídio coletivo e
 
silencioso
 
de estrelas bebendo
 
o mar.
Cidades
 
 
Não nasci em Itabira
 
por isso ao invés de aço
 
a minha saudade visita
 
as ruas enfeitadas
 
na comemoração do Corpus Christi.
 
Não cresci em Alegrete
 
e impregnada a minha pele está  
 
das ruas sem asfalto
 
das “peladas” nos terrenos baldios
 
no “Alto do Ginásio”, do “campo do Lapa”
 
lembranças que feito fuligem
 
escapam pelas chaminés do passado.
 
Gênese intacta
 
berço preservado
 
Matão cobra-me
 
fidelidade aos fatos.
 
Elevado à condição
 
de sertão macro
 
Sertãozinho observa
 
do poeta todos os passos.
 
Não resido em cidades
 
elas em mim se alojam
 
com suas essências, peculiaridades...
 
Matonense assumido
 
Sertanezino radicado
 
minha alma ainda abriga
 
em suspiros:
 
- Jaboticabal, Itabira, Alegrete, Goiás, Lambari...
 
e de todos os poemas
 
                         vestígios... 
À mesa


À mesa

um diálogo adormecido

sob a toalha

impecavelmente cuidada e

alva.


Uma quase imperceptível

mancha

no olhar de café requentado

desafia a imutável calma.
 

E o dia borda fugas

Em retalhos de tempestades.


Classificado: Noite Nacional da Poesia/ União Brasileira de Escritores - UBE/MS

Gota


A gota transcende 

                      à queda

e repousa calma

na folha que, solícita,

                           a recebe.


 O solo há tempos espera

 mas reluta a gota,

 ante a acolhida da folha

 a abandonar carícias certas.


Gota folha solo

triângulo inevitável

da chuva que é promessa.