terça-feira, 27 de agosto de 2013

Outono

Antes que o frio

do vindouro inverno

enrijeça os meus sentimentos

desfolharei todos os temores

que insistem em fincar

raízes adversas.


E em cada pedaço de silêncio

que o vento levar

repousará um verso

que servirá de elo

entre os amigos ausentes.


E o inverno será aconchegante

pois com os frutos produzidos

no outono

alimentarei a minha alma errante.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Canto

Poetas dos novos tempos

cantai

com o fervor que o instante

abriga.

E se os sonhos excederem

a pauta

no riso das crianças

encontrai guarida.

Gritai, até,


se vos fizer bem.

Mas cantai

como quem empresta ao próximo

a voz errante

que dobrará montanhas e vales.


Cantar é distribuir diamantes!

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Chico Mendes

                
                I

 A transparência de uma queda d'água

 A dignidade das veias de látex

A epiderme de todas as lágrimas

A natureza que ao algoz não se vende.

Ah, essa tua presença

Chico Mendes!


                II


Triste cântico a floresta entoa.

Quantas lutas desvendam a coragem?

Quantos andaimes até à proa?

Quem cala consente vantagem?


Afinal, quantos Chicos cabem

Na memória da paisagem?


Se não tendes respostas,

Asas à eternidade!


                III

Chico!

Ô de casa.

Ô Chico!


Eis que grita

o tempo aflito!
 
 




Valores

O meu pai foi meeiro

metade labuta, metade fé.


Amendoim, algodão, arroz...

De tudo ele plantou

e dividiu também

(estava no contrato verbal)

tempo de valores.


O meu pai foi meeiro

e nas partilhas de uma
 
vida simples

preservou-se íntegro

com suas alegrias e dores.


Selecionado: Prêmio Literário Cidade Poesia - 2010
asas

não importa se és

provido de belas asas

se te tirarem os céus

ficarás limitado ao

jardim da tua casa


onde talvez plantes orquídeas

recebas os amigos no avarandado

e, até, leias bons livros


se fores prudente

cuidarás da tua alma

e quando os céus se abrirem

o voo terá o refinado sabor

de poema libertário.

Pássaros

Não te assoberbes com

as alturas.

Outrora também

desafiei o espaço

em voos cegos,

(ocasionalmente de reconhecimento,

amiúde de ilibada entrega).


Escapei dos inimigos

com a serenidade de César

e em bolhas de sabão autodestrutivas

vislumbrei resquícios

da tíbia matéria.


Às vezes, extenuado,

do ponto mais alto observava

o vaivém das ondas errantes

ao vento as velas içadas.


Não te assoberbes,

pois,

do voo que hoje celebras

conheço a queda provável.
Transitado em julgado

Penso que todos

os sonhos (feito poemas)

deveriam ser escrito a lápis.


Permitiriam, assim,

correções nos eventuais

desvios de percurso.


Definitivo mesmo

apenas o suspiro final

transitado em julgado.


Ah, caros! Sem recurso!